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Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas no Brasil

Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas no Brasil; entenda os riscos Uma pesquisa recém-publicada na revista científica Springer Nature rev...

Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas no Brasil
Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas no Brasil (Foto: Reprodução)

Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas no Brasil; entenda os riscos Uma pesquisa recém-publicada na revista científica Springer Nature revelou a presença de poluentes orgânicos persistentes (POPs) — substâncias químicas tóxicas que demoram muito para se degradar e se acumulam nos organismos — em aves marinhas encontradas na costa do Rio Grande do Sul e no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, localizado a cerca de 1 mil quilômetros de Natal (RN). 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp A exposição a esses compostos causa diversos problemas para a fauna. Entre os principais efeitos estão alterações hormonais, danos ao fígado, problemas no desenvolvimento e redução do sucesso reprodutivo, incluindo o afinamento da casca dos ovos e uma menor taxa de eclosão. Os poluentes também podem comprometer o sistema imunológico e afetar o comportamento e a sobrevivência das aves. As análises foram feitas a partir de amostras do tecido adiposo do fígado de 25 aves, sendo seis de espécies migratórias e uma nativa. Albatroz-de-Nariz-Amarelo (Thalassarche chlororhynchos) splatzone / iNaturalist As aves migratórias foram encontradas na costa gaúcha: Pardela-grande (Ardenna gravis) Pardela-de-bico-amarelo (Calonectris borealis) Pardela-de-manx (Puffinus puffinus) Albatroz-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos) Albatroz-de-sobrancelha-preta (Thalassarche melanophris) Petrel-de-queixo-branco (Procellaria aequinoctialis). Em relação à ave nativa, trata-se do atobá-pardo (Sula leucogaster), presente no arquipélago nordestino. Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas e acendem alerta para humanos Janeide Assis Padilha Veja mais do Terra da Gente: FLAGRANTE RARO: Câmeras filmam acasalamento de lobos-guará em reserva ecológica FOME OU CORAGEM: Vídeo mostra bem-te-vi 'pescando' filhotes de pirarucu no Tocantins DE BANCÁRIA A FOTÓGRAFA: Aposentada roda o país atrás de aves raras e ganha exposição Substâncias banidas do planeta Todos os poluentes encontrados compartilham uma característica alarmante: estão banidos globalmente. O DDT (inseticida), o PCB (isolante elétrico e fluido térmico) e o Mirex (formicida) tiveram seus usos restringidos a partir dos anos 1960 e foram amplamente proibidos com a assinatura da Convenção de Estocolmo, em 2001. A presença dessas substâncias indica uma tendência de bioacumulação — quando um organismo absorve um contaminante em uma velocidade maior do que consegue eliminá-lo ao longo da vida. Mesmo anos após o banimento desses produtos, eles continuam circulando na cadeia marinha e acumulando-se nos tecidos dos animais. Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas e acendem alerta para humanos Janeide Assis Padilha “O que detectamos nas aves não indica necessariamente uso atual, mas sim a persistência ambiental dessas substâncias. São compostos extremamente estáveis, lipofílicos e resistentes à degradação”, afirma Janeide Assis Padilha, bióloga e autora principal da pesquisa. Segundo a cientista, as substâncias podem permanecer no ambiente por décadas, sendo transportadas por longas distâncias pela atmosfera e pelos oceanos. O fato de essas aves ocuparem o topo da cadeia alimentar e possuírem alta longevidade favorece a bioacumulação. “Como são espécies migratórias e utilizam diferentes regiões oceânicas, elas refletem a contaminação de amplas áreas marinhas. Isso significa que o impacto não é apenas individual, mas pode ter implicações populacionais e ecossistêmicas”, completa. Além disso, ocorre o fenômeno da biomagnificação, em que a concentração dos contaminantes aumenta a cada nível da teia alimentar. Primeiramente, pequenos organismos contaminados são ingeridos por peixes, que depois são consumidos por predadores maiores, até chegarem às aves marinhas. Risco para humanos Embora as aves estejam no topo da cadeia alimentar, os seres humanos não estão isentos dos riscos desse grave problema ambiental. Como as aves se contaminam consumindo principalmente peixes, moluscos e crustáceos — os mesmos animais que fazem parte da nossa dieta —, o alerta se estende aos pratos da população. Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas e acendem alerta para humanos Janeide Assis Padilha Como a acumulação da substância aumenta sua concentração a cada nível trófico alcançado, quanto maior for o organismo ingerido, maior será a contaminação. “Quando esses peixes fazem parte da alimentação humana, ocorre a transferência desses contaminantes para o nosso organismo”, alerta a bióloga. A exposição crônica a esses poluentes, mesmo em níveis baixos, pode causar alterações hormonais e impactos no desenvolvimento fetal e infantil, além de aumentar o risco de alguns tipos de câncer. O perigo, no entanto, depende da quantidade consumida, da espécie e da origem do alimento. Pardela-de-Barrete ou Pardela-grande (Ardenna gravis) marshallm7 / iNaturalist Perspectivas futuras Para reduzir os impactos dos POPs, a especialista aponta que a prioridade é fortalecer acordos internacionais. Outra medida essencial é o monitoramento contínuo de "espécies sentinelas", como as aves marinhas, que ajudam a indicar os níveis de contaminação nos ecossistemas. Paralelamente, o avanço de tecnologias de remoção de contaminantes surge como uma esperança. A pesquisadora ressalta que um caminho promissor é a biorremediação — o uso de organismos vivos, como bactérias, fungos ou plantas, para degradar compostos tóxicos. “Algumas bactérias, por exemplo, conseguem metabolizar certos poluentes orgânicos, reduzindo sua toxicidade ou acelerando sua degradação”, explica Janeide. Para ela, também é fundamental incentivar a difusão de informações sobre o tema, já que muitas substâncias químicas ainda em uso podem ser prejudiciais e necessitam de avaliações rigorosas. “Embora a remoção desses poluentes do ambiente seja um processo lento, reduzir novas entradas, investir em tecnologias de remediação, fortalecer políticas públicas e ampliar o monitoramento ambiental são passos fundamentais para minimizar os impactos na biodiversidade e na saúde humana”, finaliza. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente