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Primeiro homem trans a ter um filho na rede pública da PB fala sobre desafios da gestação: 'Não conseguia sair de casa'

Homem trans dá à luz primeiro bebê na rede pública estadual da PB O primeiro homem trans a ter um filho na rede pública estadual da Paraíba, Daniel Valent...

Primeiro homem trans a ter um filho na rede pública da PB fala sobre desafios da gestação: 'Não conseguia sair de casa'
Primeiro homem trans a ter um filho na rede pública da PB fala sobre desafios da gestação: 'Não conseguia sair de casa' (Foto: Reprodução)

Homem trans dá à luz primeiro bebê na rede pública estadual da PB O primeiro homem trans a ter um filho na rede pública estadual da Paraíba, Daniel Valentim, enfrentou muitos desafios relacionados à disforia de gênero durante o processo. Para gerar a pequena Iara, ele e a esposa, Gisele Castro, que também é transsexual, precisaram interromper a terapia hormonal. Ele, que é estudante de agronomia, e a esposa, que é professora universitária e veterinária, moram em Esperança, no Agreste, mas a bebê nasceu no Hospital da Mulher, em João Pessoa. Daniel Valentim teve um diagnóstico de trombose e, por isso, a gestação foi considerada de risco. No entanto, ele relata que, além desse desafio relacionado à saúde, a questão da disforia e também dos olhares das pessoas tornaram o processo muito mais difícil. “Eu não conseguia me olhar no espelho porque eu via meu quadril mais largo, a barriga crescendo. Mesmo sendo mastectomizado, o meu peito cresceu, inclusive vou ter que refazer essa cirurgia, porque cresceu bastante, e chegou o momento da situação em que a barriga estava grande e eu não conseguia mais sair de casa pelos olhares”, disse o estudante de agronomia. Por causa da gestação e da interrupção dos hormônios, algumas características físicas começam a mudar, o que provocou disforia de gênero. A condição é caracterizada pelo sofrimento ou desconforto causado pela incompatibilidade entre a identidade de gênero da pessoa e características físicas associadas ao sexo atribuído no nascimento. Daniel relata que encontrava forças ao lembrar que tudo era pela filha que logo nasceria. “Quando eu olhava para o meu corpo, que eu via o quadril alargando, o peito crescendo, eu olhava para a barriga e fazia assim: ‘é pela minha filha, isso vai passar, depois eu resolvo isso’. Então, até me emociono quando eu falo essas coisas”. A mãe da bebê, Gisele Castro, também precisou interromper os hormônios, após mais de 15 anos de tratamento. “O sistema reprodutor se modifica após a utilização dos hormônios, mas essa modificação pode ser revertida a partir de um acompanhamento médico; foi o que aconteceu com a gente. Eu tinha mais de 15 anos de hormonioterapia e consegui reverter", explicou. Daniel também relata que enfrentou situações de estranhamento durante a gestação. Segundo ele, olhares de curiosidade e preconceito em espaços públicos marcaram esse período e evidenciaram os desafios vividos por um homem trans gestante. “Eu me recordo de uma situação em que eu fui comprar pão e a barriga já estava bem aparente. E aí a moça da padaria olhou para mim, olhou para a barriga e fez um olhar bem assim estranho. Isso me atravessou de uma forma grande”. LEIA TAMBÉM: 'Família tem a ver com amor e respeito', diz esposa de homem trans que deu à luz pela primeira vez em hospital estadual da Paraíba Primeira tentativa O casal tentou engravidar em 2022. Porém, a mudança das características físicas por causa da interrupção dos hormônios trouxe a disforia de gênero, o que fez com que ambos retomassem o tratamento e adiassem o sonho. “Eu não aguentava mais por conta da disforia. Minha barba tinha caído, já não tinha quase nenhum pelo no rosto. Então, meu peito crescia, meu quadril ficou mais largo, minha cintura mais fina, e isso me incomodava muito. Eu me sentia como antes da transição, não conseguia me olhar no espelho e reconhecer que meu corpo refletia quem eu sou por dentro. E Gisele, a mesma coisa: os pelos voltaram a crescer nela, o rosto dela ficou menos feminilizado”. Gravidez e parto Gisele e Daniel na hora do parto Divulgação/Governo da Paraíba Em 2025, o casal conseguiu engravidar. A mãe, Gisele, conta que não esperava que o marido conseguisse engravidar tão rápido. "A gente combinou de fazer o exame de urina juntos. Só que aí teve um dia em que o Daniel, com a ansiedade muito alta, foi à farmácia e fez. Eu estava trabalhando, ele fez, e aí deu positivo. Aí ele pegou, comprou uma fralda, embrulhou a fralda como um presente, colou o exame de urina e fez uma surpresa, falou que tinha um presente para mim. Quando eu abri, era uma fralda e o exame positivo. Então, foi uma emoção muito grande. Eu não esperava que ele fosse engravidar tão cedo". Daniel Valentim começou a fazer o pré-natal em Campina Grande, mas a busca por um ambiente mais seguro levou o casal a pesquisar outras opções e encontrar o Hospital da Mulher, em João Pessoa, onde Iara nasceu em junho de 2026. Eles descobriram que a unidade realizava cirurgias de mastectomia em homens trans, encaminhados pelo Espaço LGBT Clementino Fraga. Isso indicava que os profissionais da unidade já eram treinados para o acolhimento desse público. O depoimento positivo de uma amiga referendou a escolha pela maternidade, inaugurada há pouco mais de um ano. Com a ajuda do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, em João Pessoa, o casal conseguiu uma vaga e transferiu o pré-natal para o Hospital da Mulher no oitavo mês de gestação. "Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer”, afirmou o pai de Iara. Outros modelos de família Daniel e Gisele durante gestação Gisele Castro/Arquivo pessoal Para Gisele, contar a história da família ajuda a mostrar que casais LGBTQIAP+ podem oferecer um ambiente saudável para criar um filho, ambientes esses que nem sempre são oferecidos por famílias heteronormativas. Segundo ela, o respeito, o amor e o cuidado são mais importantes do que a configuração familiar. "Então, às vezes, você tem um casal que a gente chama de heteronormativo, mas que tem violência, que tem traição, que tem várias coisas ruins e que deixa a desejar no sentido do amor, no sentido da fraternidade, no sentido da união e do respeito. E que a gente quer mostrar que não precisa ser heterossexual e cis, homem cis e mulher cis, para ter uma família." Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba