Marina Lima valida assinatura moderna da obra autoral, entre perdas e ganhos, no show dos 70 anos
Marina Lima apresenta o show 'Marina Lima 70' no Rio de Janeiro (RJ) um mês após a estreia em Porto Alegre (RS) Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título:...
Marina Lima apresenta o show 'Marina Lima 70' no Rio de Janeiro (RJ) um mês após a estreia em Porto Alegre (RS) Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Marina Lima 70 Artista: Marina Lima Data e local: 25 de abril de 2026 na Fundição Progresso (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Não, Marina Lima não evita as músicas do recém-lançado 18º álbum de estúdio da artista – “Ópera Grunkie” (2026), alvo de controvérsias nas redes sociais por conta de críticas negativas – no roteiro do show da turnê “Marina Lima 70”, estreado em Porto Alegre (RS) em 28 de março e apresentado no Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 25 de abril, para plateia calorosa que incluiu estrelas como os cantores Caetano Veloso e Ney Matogrosso. O álbum está longe de ser a tônica do show, mas estão lá no roteiro músicas como “Só que não” (Marina Lima, Adriana Calcanhotto e Giovanni Bizzotto, 2026), “Olívia” (Marina Lima, Arthur Kunz e Renato Gonçalves, 2026) – tema que perde um pouco do clima de festa fora do contexto original do álbum – e o “Samba pra diversidade” (Marina Lima, 2026), cantado pela autora diante da exposição no telão de bandeira com todas as cores do amor. Sem falar em “Meu poeta” (Marina Lima, 2026), emblema do luto que atravessa o álbum “Ópera Grunkie” pela morte recente do irmão e parceiro letrista da artista, Antonio Cicero (1945 – 2024), poeta de escrita moderna que, na década de 1980, ajudou a renovar a lírica do universo pop roqueiro nacional em sintonia com as letras de contemporâneos como Tavinho Paes (1955 – 2024), nome não por acaso também presente na discografia antenada de Marina Lima. Marina Lima apresenta na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro (RJ), o show em que celebra 70 anos de vida Rodrigo Goffredo Contudo, o show “Marina Lima 70” representa sobretudo a afirmação e validação da assinatura singular da desde sempre moderna obra autoral desta cantora e compositora que também se impôs como instrumentista no universo historicamente masculino do rock. Simbolicamente, aliás, foi tocando uma guitarra que a artista apareceu no palco da Fundição Progresso, cantando o rock “Pra começar” (Marina Lima, 1986) na abertura do show. A imagem desse início remeteu à foto de Marina empunhando uma guitarra na contracapa do primeiro álbum, “Simples como fogo” (1979), como sinal de coerência da artista ao longo dos 50 anos de carreira iniciada em 1976, então ainda somente como compositora, quando Maria Bethânia gravou a (censurada) música “Alma caiada”, composta por Marina a partir de poema de Cicero, musicado à revelia do poeta. Gata todo dia aos 70 anos, completados em 17 de setembro de 2025, Marina Lima sensualizou (sem apelação) com a bailarina e coreógrafa Carol Rangel em determinado momento do show e alternou figurinos ao longo dos 90 minutos da apresentação. Tudo soou natural para uma cantora que pôs o sexo explicitamente em pauta no pop brasileiro dos anos 1980. Por mais que as músicas do álbum “Ópera Grunkie” tenham sucumbido diante do cancioneiro pregresso de Marina Lima, inferioridade corroborada pela frieza momentânea da plateia na apresentação das músicas novas, mas também justificada pelo fato de as canções do álbum ainda serem pouco conhecidas, a disparidade se diluiu diante da cena charmosa do show “Marina Lima 70”. Marina Lima canta músicas como 'Criança' (1991) no show 'Marina Lima 70' Rodrigo Goffredo Maestra da banda formada pelos músicos Arthur Kunz (bateria e programações), Carol Mathias (baixo, teclados, sintetizadores e vocais), Giovanni Bizzotto (violão e vocal) e Gustavo Corsi (guitarra), Marina Lima celebrou a força de uma obra já atemporal. Marina tem uma autoridade e uma autoralidade que a fazem parecer ser a compositora de músicas de lavras alheias como “À francesa” (Claudio Zoli e Antonio Cicero, 1989) – sucesso que salvou a pátria (sob prisma mercadológico) no tenso álbum “Próxima parada” (1989) – e “Pessoa” (Dalto e Claudio Rabello, 1983), sucesso de Dalto do qual Marina se apropriou com personalidade, dez anos depois do lançamento da canção, em gravação feita para o álbum “O chamado” (1993). De novidades na voz de Marina Lima, o show dos 70 anos da artista apresentou a irresistível canção “Quem sabe isso quer dizer amor” (Lô Borges e Marcio Borges, 2002) – brevemente entoada pela artista após a banda começar a cantar a música – e “Condição” (Lulu Santos, 1986), funk lançado há 40 anos na voz do autor Lulu Santos e cantado na íntegra por Marina. Marina Lima sempre gostou dessa música de Lulu e, no roteiro do show, a conectou sagazmente com “Criança” (1991), música de autoria da própria artista, composta com ecos da black music norte-americana. “Criança” foi apresentada pela autora no álbum mais coeso e mais refinado da artista, “Marina Lima” (1991), obra-prima cujo repertório também inclui “Acontecimentos” (Marina Lima e Antonio Cicero, 1991), música alocada no bis em que a cantora rebobinou três músicas do show anterior “Rota 69” (2024). Marina Lima troca de figurino ao longo do show dos 70 anos Rodrigo Goffredo Para alegria da plateia ávida por hits, Marina encadeou nesse bis “Nada por mim” (Herbert Vianna e Paula Toller, 1985), “Nem luxo nem lixo” (Rita Lee e Antonio Cicero, 1980) e “Uma noite e 1/2” (Renato Rocket, 1987) com efeito catártico no público. Antes do bis, o show foi encerrado em belíssimo anticlímax com a balada cool “Não sei dançar” (1991), música mais aclamada de Alvin L (1959 – 2026), compositor que saiu de cena no último dia 5 de abril. Momentos após aparecer no palco da Fundição Progresso, Marina Lima já disse que a estreia carioca do show dos 70 anos seria dedicada a Alvin L, de quem se tornou parceira a partir de 1993. Alvin mereceu a dedicatória nessa bela estreia no Rio de Janeiro (RJ) em que Marina Lima, entre perdas e ganhos (inalienáveis em se tratando de artista que já nada precisa provar a ninguém), se confirmou antenada e em constante movimento, mesmo quando aciona em cena a máquina de sucessos impagáveis. Marina Lima toca violão e guitarra no show 'Marina Lima 70' Rodrigo Goffredo