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Mama-cadela, a poderosa fruta do Cerrado que pode ser mascada como chiclete

A mama-cadela (Brosimum gaudichaudii) pertence à família Moraceae, a mesma do figo e da amora Marcelo Kuhlmann Quem cresceu perto da roça, do mato ou de um q...

Mama-cadela, a poderosa fruta do Cerrado que pode ser mascada como chiclete
Mama-cadela, a poderosa fruta do Cerrado que pode ser mascada como chiclete (Foto: Reprodução)

A mama-cadela (Brosimum gaudichaudii) pertence à família Moraceae, a mesma do figo e da amora Marcelo Kuhlmann Quem cresceu perto da roça, do mato ou de um quintal com chão batido talvez se lembre dela. Pequena, amarelada, de nome curioso e sabor que não se esquece fácil. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no WhatsApp A mama-cadela (Brosimum gaudichaudii) é dessas frutas que não costumam aparecer nas feiras das grandes cidades, mas seguem vivas na memória afetiva de quem aprendeu cedo a reconhecer o que o Cerrado oferece. Conhecida também como chicletinho-do-cerrado, fruta-de-cera ou algodãozinho, a mama-cadela costuma ser encontrada por quem anda sem pressa, repara no chão, observa as árvores baixas e sabe esperar a época certa. Mama-cadela, em Goiás Arquivo pessoal/Roberval Cortes Mas, por trás do apelido engraçado e da lembrança nostálgica, existe uma planta de enorme valor ecológico, cultural e nutricional. Veja mais conteúdos do Terra da Gente: INCRÍVEL: 'O mundo pareceu parar', diz estudante que filmou harpia com arara-canindé nas garras VÍDEO: Gravação mostra filhotes de cuíca atravessando trilha no Jardim Botânico de SP TAMANDUÁ NADA? Registro raro mostra animal atravessando rio em SP; assista Uma fruta do 'Brasil profundo' Do ponto de vista botânico, a mama-cadela pertence à família Moraceae, a mesma do figo e da amora. Segundo o biólogo e doutor em botânica Marcelo Kuhlmann, a planta é amplamente distribuída pelo Brasil, ocorrendo em praticamente todos os domínios fitogeográficos, com exceção do Pampa. Mama-cadela é amplamente distribuída pelo Brasil, ocorrendo em praticamente todos os domínios fitogeográficos, com exceção do Pampa mariobarroso/iNaturalist “No Cerrado, ela é especialmente comum e bem adaptada às condições ambientais locais”, explicou. A espécie se desenvolve a pleno sol, tolera solos pobres em nutrientes e exige boa drenagem, características típicas de plantas que evoluíram sob condições de estresse hídrico e nutricional. Na paisagem do Cerrado, a mama-cadela aparece geralmente como arbusto ou arvoreta, com porte discreto, entre 1,5 e 4 metros de altura, quase sempre passando despercebida aos olhos de quem não sabe o que procurar. Veja o que é destaque no g1: Veja os vídeos que estão em alta no g1 Nomes que contam histórias O nome popular chama atenção e carrega explicações. “Mama-cadela”, ou “mamica-de-cadela”, faz referência direta à aparência enrugada do fruto e à presença de um látex branco, que se libera quando ele é colhido, uma característica comum às espécies da família Moraceae. Fruta libera um látex branco quando é colhida, uma característica comum às espécies da família Moraceae Marcelo Kuhlmann Já apelidos como chicletinho-do-cerrado, fruta-de-cera ou algodãozinho surgem da textura da polpa, que pode ser mascada por bastante tempo sem se dissolver na boca. Doce, cremosa e macia, a polpa costuma ser consumida in natura, mas também pode virar doce, picolé ou compota – usos que reforçam o potencial gastronômico ainda pouco explorado da fruta. Doce, cremosa e macia, a polpa da mama-cadela costuma ser consumida in natura, mas também pode virar doce, picolé ou compota Marcelo Kuhlmann Um “superalimento” escondido no mato Além do sabor e da tradição, a mama-cadela vem chamando atenção da ciência. Um estudo recente publicado na revista Journal of the Brazilian Chemical Society revelou que o fruto é rico em vitamina C, a ponto de uma porção de cerca de 100 gramas fornecer quase 100% da ingestão diária recomendada. Mama-cadela é rica em vitamina C Marcelo Kuhlmann A mesma pesquisa aponta que a fruta também concentra carotenoides, precursores da vitamina A, alcançando cerca de 80% da recomendação diária. Na comparação com a acerola, famosa pelo altíssimo teor de vitamina C, a mama-cadela não chega aos valores extremos da parente mais popular. Ainda assim, seu desempenho nutricional impressiona, especialmente por se tratar de uma espécie nativa, silvestre e pouco domesticada. “Ela pode ser considerada um verdadeiro superalimento brasileiro”, afirmou Kuhlmann. A mama-cadela aparece geralmente como arbusto ou arvoreta, com porte discreto, entre 1,5 e 4 metros de altura Marcelo Kuhlmann Assim como outros frutos do Cerrado, como pequi, baru, jatobá e araticum, a mama-cadela concentra vitaminas, fibras e antioxidantes em pequenas porções. Planta medicinal e saber tradicional Muito antes dos estudos laboratoriais, a mama-cadela já era conhecida pela medicina popular, especialmente no tratamento do vitiligo. As raízes, cascas e folhas da planta contêm furanocumarinas, substâncias que deram origem a medicamentos e fitoterápicos usados até hoje. Pesquisas científicas também indicam propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, cicatrizantes e depurativas, reforçando o valor medicinal da espécie. Mama-cadela possui propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, cicatrizantes e depurativas geraldomorais/iNaturalist Mas o alerta é importante: uso medicinal exige cuidado. “A diferença entre o remédio e o veneno está na dose”, lembrou o pesquisador. O uso inadequado dos extratos pode causar fotossensibilidade, queimaduras e outros efeitos colaterais. Já o consumo do fruto maduro, segundo ele, é seguro, mas desde que seja respeitado o tempo da natureza. Por que quase não aparece nas cidades? Apesar de tudo isso, a mama-cadela segue pouco conhecida nos centros urbanos. Para Marcelo, a explicação passa pela própria história do Brasil. Apelidos como chicletinho-do-cerrado, fruta-de-cera ou algodãozinho surgem da textura da polpa marlucegomes/iNaturalist “Muitos saberes tradicionais foram desvalorizados ao longo do processo de colonização”, explicou. Soma-se a isso o fato de que a maior parte dos alimentos consumidos hoje tem origem estrangeira, introduzidos por sua alta produtividade e facilidade de cultivo. O resultado é um paradoxo: o país com a maior biodiversidade vegetal do planeta ainda conhece muito pouco das próprias plantas. “Quem cresce longe do mato muitas vezes nem imagina que esses frutos existem ou sente medo de consumi-los”, disse o pesquisador. A fruta pede reconexão Na natureza, a mama-cadela frutifica aos poucos. Nunca em excesso. Talvez por isso ela ensine, sem querer, uma lição simples: respeitar o tempo das coisas. “Tudo tem seu tempo e sua medida”, resumiu Marcelo. Enquanto o Cerrado segue ameaçado, frutas como a mama-cadela continuam resistindo, silenciosas, discretas, esperando ser lembradas. Não nas prateleiras do supermercado, mas na memória de quem ainda sabe reconhecer o sabor do mato. Dá para plantar em casa? A boa notícia é que sim. Pelo porte pequeno e crescimento lento, a mama-cadela pode ser cultivada em quintais e áreas residenciais, desde que em sol pleno e solo bem drenado. Pelo porte pequeno e crescimento lento, a mama-cadela pode ser cultivada em quintais e áreas residenciais kfp/iNaturalist A espécie investe primeiro no crescimento das raízes, por isso o ideal é o plantio direto no local definitivo. As sementes devem ser plantadas logo após a retirada do fruto, já que não toleram ressecamento. A frutificação ocorre principalmente na primavera e no verão, acompanhando o período chuvoso. 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