Indígena do AM se torna primeira mulher médica da etnia Baniwa para cuidar da própria comunidade: 'voltei para ajudar a minha gente'
Médica durante atendimento em uma comunidade indígena no interior do Amazonas Divulgação Aos oito anos de idade, a indígena Ilzinei da Silva viu algo que m...
Médica durante atendimento em uma comunidade indígena no interior do Amazonas Divulgação Aos oito anos de idade, a indígena Ilzinei da Silva viu algo que mudaria os rumos da própria vida: médicos militares atuando em São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas, onde nasceu. "Percebi o impacto que a medicina poderia ter na vida das pessoas e decidi que queria seguir esse caminho”, relembra. Décadas depois, o caminho foi percorrido e fez com que ela se tornasse a primeira mulher da etnia Baniwa a se formar em medicina. Hoje, Ilzinei se dedica ao atendimento aos povos originários na própria comunidade. No Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), o g1 conta a trajetória da médica, marcada por desafios de quem cresceu em meio às dificuldades enfrentadas pelo povo Baniwa, mas repleta de superação e desejo de ampliar o acesso à saúde nas comunidades do Alto Rio Negro. Filha de pais analfabetos e criada com seis irmãos, Ilzinei revela que só foi alfabetizada aos 8 anos de idade. Desde cedo, percebeu que a falta de acesso à educação e aos serviços de saúde fazia parte da realidade de sua comunidade. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp "Minha infância foi muito difícil e precária. Meus pais sempre nos incentivaram a estudar, mesmo com todas as limitações." Os estudos fizeram com que a indígena ingressasse no curso de medicina da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) em 2014. Para isso, precisou se mudar da comunidade em São Gabriel da Cachoeira para a capital Manaus e aprender a conviver com outras culturas. O diploma veio em 2020, durante o pico da pandemia da covid-19. Ilzinei relata que o período foi difícil pelo medo de um vírus, até então desconhecido, que já tinha causado a morte de outros colegas de medicina. "Perdi colegas para o vírus, mas continuamos na linha de frente. A saúde foi a categoria que nunca parou de trabalhar. Hoje vejo que a minha formação foi essencial para que eu pudesse enfrentar uma situação como esta", contou. Atualmente, a médica atua na Casa de Apoio à Saúde Indígena na sua cidade natal, que é vinculada ao Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro, e também como médica militar temporária no Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira. O trabalho, segundo ela, é marcado pelo olhar diferenciado para a população indígena. “Voltei para ajudar a minha gente. Pretendo me especializar em ginecologia para oferecer um cuidado humanizado às mulheres, principalmente no pré-natal e nos partos. Muitas vezes elas deixam de fazer acompanhamento por morarem em regiões de difícil acesso”, explica. Formatura da turma de medicina da UEA durante a pandemia da covid-19 Divulgação Representatividade e vida familiar A médica destacou que ser a primeira médica da etnia representa muito mais do que uma conquista pessoal. “Carrego comigo não apenas uma vitória individual, mas de toda a comunidade. Quero mostrar aos jovens indígenas que estudar é também uma forma de fortalecer nosso povo. Quando um indígena chega à universidade, abre caminho para muitos outros”, relatou. Durante a graduação, ela conciliou os estudos com a vida familiar e o casamento com o químico Osvaldo Pontes. O marido relembra com orgulho o apoio dado pela família e amigos para que Ilzinei continuasse o curso. “Ela engravidou no segundo período e quase desistiu, mas com apoio da família e dos amigos conseguiu seguir. Hoje é um orgulho enorme para todos nós. Ela é a primeira médica Baniwa da nossa região”, afirma o marido. Além da atuação profissional, Ilzinei destaca a importância de atender pacientes na língua Baniwa. Ela defende que atender na própria língua é fundamental porque carrega a cultura e fortalece a confiança entre médico e paciente. Isso evita erros de interpretação e garante um cuidado mais humano. Com planos de especialização e o desejo de incentivar novos profissionais indígenas na área da saúde, Ilzinei reforça a mensagem de esperança: “Nunca desistam dos seus sonhos e nunca esqueçam de onde vieram. A educação é uma ferramenta poderosa de transformação. Nossas raízes são nossa força, e o conhecimento pode ser um instrumento para cuidar do nosso povo e construir um futuro melhor." Atualmente Ilze atua como médica do Exército Brasileiro Divulgação Dia Internacional da mulher Muitas pessoas consideram o 8 de Março apenas uma data de homenagens às mulheres, mas, diferentemente de outros dias comemorativas, ela não foi criada pelo comércio — e tem raízes históricas mais profundas e sérias. Oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975, o chamado Dia Internacional da Mulher é comemorado desde o início do século 20. Hoje, a data é cada vez mais lembrada como um dia para reivindicar igualdade de gênero e com protestos ao redor do mundo — aproximando-a de sua origem na luta de mulheres que trabalhavam em fábricas nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. Elas começaram uma campanha dentro do movimento socialista para exigir seus direitos — as condições de trabalho delas eram ainda piores que as dos homens à época. Cartaz em Londres dizendo 'O futuro é feminino': mulheres de todo o mundo fazem marchas e protestos por direitos iguais na semana do 8 de Março EPA Veja os vídeos que estão em alta no g1