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Imperatriz vai apostar em ‘vocabulário visual’ e fugir da narrativa biográfica para cantar Ney, diz Leandro Vieira

Obra de Ney Matogrosso vira manifesto estético e político em enredo da Imperatriz A Imperatriz Leopoldinense vai levar à Marquês de Sapucaí um enredo inspi...

Imperatriz vai apostar em ‘vocabulário visual’ e fugir da narrativa biográfica para cantar Ney, diz Leandro Vieira
Imperatriz vai apostar em ‘vocabulário visual’ e fugir da narrativa biográfica para cantar Ney, diz Leandro Vieira (Foto: Reprodução)

Obra de Ney Matogrosso vira manifesto estético e político em enredo da Imperatriz A Imperatriz Leopoldinense vai levar à Marquês de Sapucaí um enredo inspirado em Ney Matogrosso que foge da narrativa cronológica e biográfica. A proposta do carnavalesco Leandro Vieira é destacar a potência estética, política e performática construída pelo artista ao longo de mais de cinco décadas. “Essa é a terceira vez que eu faço uma homenagem a uma personalidade musical, e em nenhuma delas eu fui biográfico. Nunca me interessou essa ideia de contar a vida em ordem”, explica Leandro. O ponto de partida do desfile é a obra de Ney entendida como manifesto — não apenas musical, mas também visual, corporal e político. Para o carnavalesco, o artista transformou o corpo e a roupa em discurso, usando a imagem como ferramenta de expressão e enfrentamento. “Como poucos intérpretes, ele entendeu o corpo e aquilo que veste como manifestação política e estética. Ninguém se vestiu como Ney Matogrosso ao longo da vida inteira”, afirma. Das performances com os Secos & Molhados, nos anos 1970, às apresentações mais recentes, a leitura é a mesma: Ney construiu personagens que desafiaram normas de gênero, comportamento e moral em um Brasil marcado pela ditadura militar. “Isso tudo explode visualmente e musicalmente nos anos 70, em um país conservador. Essa imagem ganha força porque vira símbolo de transgressão.” 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Leandro Vieira, carnavalesco da Imperatriz Alexandre Barreto/TV Globo No desfile, essa força aparece organizada em setores que traduzem a obra do artista em imagens reconhecíveis. Canções como “Rosa de Hiroshima”, “Bandido”, “Feitiço” e “Homem com H” ajudam a construir um vocabulário visual que mistura androginia, animalidade, erotismo e poesia. “O discurso político do Ney é poético. Ele afronta o sistema pela estética, pelo corpo, pelo canto”, diz o carnavalesco, ao explicar a criação de um setor chamado “O poema que afronta o sistema”. A transgressão, no entanto, não se concentra em um único momento do desfile. Ela atravessa toda a apresentação, inclusive nas fantasias da comunidade. “Não existe roupa de homem e roupa de mulher. Todas as roupas permitem corpos com signos misturados. Nudez também é discurso político.” Leandro Vieira e Ney Matogrosso, enredo da Imperatriz em 2026 Wagner Rodrigues/Imperatriz Essa ambiguidade é central no projeto visual. Um mesmo figurino pode reunir referências de cangaceiro e vedete, meia arrastão e símbolos de uma masculinidade caricata. Para o carnavalesco, trata-se de deboche e provocação — o oposto do normativo. O enredo também dialoga com o momento vivido pela própria Imperatriz, que, segundo Leandro, passa por um processo de transformação desde 2020. Ele afirma que o conceito de “camaleão” traduz tanto sua trajetória na escola quanto o sentimento de uma Imperatriz que mudou e deixou para trás a imagem de escola “certinha” da Sapucaí. LEIA TAMBÉM: Imperatriz Leopoldinense junta 2 obras para o samba de 2026 Escola de Ramos homenageia Ney Matogrosso e seu perfil ‘camaleônico’ Enredo e samba: Imperatriz 2026 Para ele, Ney Matogrosso e o carnaval compartilham a mesma linguagem. “Carnaval é transgressão. Ney Matogrosso é transgressão. Ele sempre foi um manifesto político, estético e de liberdade”, resume. A escolha do homenageado só foi confirmada depois que o artista aceitou ouvir a proposta. O convite foi direto e, segundo Leandro, veio acompanhado de um pedido: que Ney não lhe negasse o direito de sonhar. A ideia foi apresentada, aprovada e acolhida. Na Avenida, a promessa é de um desfile em que o componente não apenas veste a fantasia, mas incorpora o espírito do homenageado. O samba, segundo o carnavalesco, faz o corpo cantar — e o corpo, ao vestir a fantasia, passa a integrar esse imaginário múltiplo e libertário. No fim, o recado da Imperatriz é claro: emoção, delírio e liberdade. “A Imperatriz não é mais a certinha da Ramos", diz Leandro. A Imperatriz é a 2ª escola a se apresentar no domingo (15). O desfile deve começar entre 23h20 e 23h30. Ney Matogrosso recebe o pavilhão da Imperatriz na final do samba Nelson Malfacini/Divulgação Imperatriz