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'Fiz piada com o príncipe saudita no YouTube - depois meu celular foi hackeado e fui espancado no centro de Londres'

Ghanem al-Masarir foi hackeado em 2018 por um software de espionagem no iPhone BBC Com centenas de milhões de visualizações, o youtuber Ghanem al-Masarir est...

'Fiz piada com o príncipe saudita no YouTube - depois meu celular foi hackeado e fui espancado no centro de Londres'
'Fiz piada com o príncipe saudita no YouTube - depois meu celular foi hackeado e fui espancado no centro de Londres' (Foto: Reprodução)

Ghanem al-Masarir foi hackeado em 2018 por um software de espionagem no iPhone BBC Com centenas de milhões de visualizações, o youtuber Ghanem al-Masarir estava no auge. Do seu apartamento na cidade inglesa de Wembley, o comediante falastrão e que fazia tiradas ofensivas causava impacto como crítico da família real da Arábia Saudita. Mas, além de atrair fãs, ele fez alguns inimigos poderosos. A primeira coisa que al-Masarir notou foi que seus celulares estavam se comportando de forma estranha. Eles se tornaram muito lentos, com as baterias acabando rapidamente. Então ele percebeu ver os mesmos rostos ao circular em diferentes partes de Londres. Pessoas que pareciam ser apoiadores do regime saudita começaram a pará-lo na rua, assediando-o e filmando-o. Mas como eles sabiam onde ele estava o tempo todo? Al-Masarir temia que seu telefone estivesse sendo usado para espioná-lo. Especialistas cibernéticos confirmariam mais tarde que ele se tornara uma nova vítima da ferramenta de invasão Pegasus. "Era algo que eu não conseguia compreender. Eles podem ver sua localização. Eles podem ligar a câmera. Podem ligar o microfone, ouvir você", diz Al-Masarir à BBC. "Eles têm seus dados, todas as fotos, tudo. Você sente que foi violado." Na segunda-feira (26/1), após seis anos de batalhas judiciais, a Alta Corte de Justiça de Londres decidiu que a Arábia Saudita era responsável pela invasão e ordenou que o reino pagasse a Al-Masarir mais de 3 milhões de libras (R$ 21,5 milhões) em indenização. Golpe por mensagem de texto O 'Ghanem Show' ainda tem 600 mil inscritos no YouTube, mas o comediante não posta mais vídeos The Ghanem Show Os iPhones de Al-Masarir foram hackeados em 2018 depois que ele clicou em links em três mensagens de texto aparentemente enviadas por veículos de notícias como ofertas especiais de assinatura. Isso o levou a ser perseguido, assediado e, em agosto daquele ano, espancado no centro de Londres. O tribunal ouviu que duas pessoas que Al-Masarir não conhecia se aproximaram dele e gritaram, dizendo "quem ele era para falar da família real saudita?", antes de acertá-lo no rosto com um soco e continuarem com a agressão. Pessoas que passavam intervieram, e os dois homens recuaram, chamando o YouTuber de "escravo do Catar" e dizendo que iriam "lhe dar uma lição". O juiz da Alta Corte disse que o ataque foi premeditado e observou que um dos agressores usava um fone de ouvido. "Há indícios convincentes" de que o ataque e a invasão hacker "foram dirigidos ou autorizados pelo Reino da Arábia Saudita ou agentes agindo em seu nome", disse o juiz Pushpinder Saini. "O Reino da Arábia Saudita tinha um claro interesse e motivação para calar as críticas públicas ao governo saudita", decidiu o juiz. Após a agressão, Al-Masarir continuou sendo perseguido. Em 2019, uma criança se aproximou dele em um café no bairro de Kensington e cantou uma música elogiando o rei Salman, o monarca saudita. Este incidente foi filmado e postado nas redes sociais, viralizou com hashtag própria e foi até transmitido na televisão estatal da Arábia Saudita. No mesmo dia, um homem caminhou até Al-Masarir quando ele estava saindo de um restaurante na capital britânica e lhe disse: "Seus dias estão contados", antes de ir embora. Al-Masarir nasceu na Arábia Saudita, mas vive no Reino Unido há mais de 20 anos. Ele agora é um cidadão britânico e vive em Wembley, mas não se aventura mais longe de casa — ir ao centro de Londres ainda é um trauma. O comediante, de 45 anos, alcançou a fama no mundo de língua árabe por seus vídeos satíricos no YouTube criticando os governantes sauditas, em particular o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, que governa de fato a Arábia Saudita. Os vídeos de al-Masarir frequentemente satirizavam o príncipe herdeiro saudita Getty Images via BBC As tiradas humorísticas de Al-Masarir — e às vezes ataques pessoais e ofensivos ao governo saudita — frequentemente viralizavam, gerando mais de 345 milhões de visualizações. Em seu clipe mais assistido — que tem 16 milhões de visualizações — ele criticou as autoridades por estarem irritadas com um vídeo que viralizou de garotas dançando na Arábia Saudita. Misteriosamente, o som foi removido no YouTube e Al-Masarir não tem ideia de como ou quando o vídeo foi editado. Desde que ele foi hackeado e atacado, ele perdeu a confiança e ficou deprimido. Antes bem-humorado e aberto, ele concordou em falar com a BBC — mas estava reservado e não quis mostrar totalmente o rosto. Ele não posta um vídeo há três anos e diz que, apesar de sua vitória legal, o governo saudita conseguiu silenciá-lo. "Nenhuma quantia em dinheiro pode compensar o dano que isso me causou", diz ele. "Realmente me transformou. Não sou o mesmo Ghanem de antes." Veja os vídeos que estão em alta no g1 O software Pegasus Especialistas em spyware do Citizen Lab da Universidade de Toronto, Canadá, confirmaram que Al-Masarir havia sido hackeado com o spyware Pegasus. Eles enviaram um analista a Londres e consideraram altamente provável que a invasão tenha sido orquestrada pela Arábia Saudita. O Pegasus é uma ferramenta fabricada pela empresa israelense NSO Group, que disse só vender seu software a governos para ajudar a rastrear terroristas e criminosos. Mas o Citizen Lab encontrou o programa em telefones pertencentes a políticos, jornalistas e dissidentes. Quando Al-Masarir tentou pela primeira vez entrar como uma ação contra a Arábia Saudita, o reino argumentou que estava protegido de processos judiciais sob a Lei de Imunidade do Estado de 1978. Mas em 2022 o tribunal decidiu que a Arábia Saudita não tinha imunidade. Desde então, o país não foi representado em mais nenhum processo. "O Reino da Arábia Saudita deixou de apresentar uma defesa ou responder a esta ação e violou múltiplas ordens adicionais. Parece improvável que participe do processo", concluiu o juiz. Ainda não está claro se a Arábia Saudita pagará a indenização estipulada. A BBC contatou a embaixada saudita em Londres, mas não obteve resposta. Al-Masarir diz que está determinado a fazer cumprir a sentença e está disposto a usar tribunais internacionais, se necessário. Mas nenhuma quantia em dinheiro compensará como a invasão virou sua vida de cabeça para baixo, diz ele. "Me sinto deprimido por eles terem conseguir fazer algo assim em Londres, no Reino Unido."