Conheça a serpente que 'finge' ser jararaca para sobreviver
Conheça a serpente que 'finge' ser jararaca para sobreviver Imagine a cena: você está em uma trilha de Mata Atlântica e, de repente, se depara com uma serpe...
Conheça a serpente que 'finge' ser jararaca para sobreviver Imagine a cena: você está em uma trilha de Mata Atlântica e, de repente, se depara com uma serpente de padrões geométricos no chão. Ao notar sua presença, ela se arma, achata a cabeça deixando-a triangular e agressiva. O instinto grita "Jararaca!". O medo é imediato. Mas, na verdade, você acaba de cair em um dos "golpes" mais antigos e sofisticados da evolução. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no WhatsApp A protagonista desse teatro biológico é a Falsa-jararaca (Xenodon neuwiedi), também conhecida como boipeva, jararaquinha ou quiriripitá. Diferente da temida Bothrops jararaca, ela não tem veneno e é inofensiva ao ser humano. Sua única arma é a mentira. O Terra da Gente conversou com o herpetólogo Giuseppe Puorto, pesquisador aposentado do Instituto Butantan, para desvendar os segredos dessa serpente que, de tão parecida com a "prima" perigosa, acaba sendo vítima da própria fantasia. Falsa-jararaca, boipeva à esquerda e jararaca verdadeira à direita. danmhaddad e jonathan_ehlert / iNaturalist A "atriz" do mundo animal O comportamento da Xenodon neuwiedi é um exemplo clássico do que a ciência chama de Mimetismo Batesiano: uma espécie inofensiva "imita" os sinais de alerta de uma espécie perigosa para afugentar predadores. Veja mais conteúdos do Terra da Gente: DESCOBERTA: Nova espécie prima da jabuticaba e com pelos dourados é descoberta MEDICINAL: Mama-cadela, a poderosa fruta do Cerrado que pode ser mascada como chiclete BESOURO-JOIA: Conheça o inseto de brilho metálico flagrado em MG; VÍDEO Segundo Puorto, a "atuação" é instintiva. "Ela age por instinto diante de uma ameaça. O achatamento da cabeça (achatamento dorso-ventral) é usado para intimidar o inimigo. Ela expande os ossos da cabeça e das costelas, modificando temporariamente a forma do seu corpo", explicou o especialista. O nome popular "Boipeva", inclusive, vem do tupi e significa exatamente "cobra-chata", uma referência direta a essa tática de defesa. Conheça a serpente que 'finge' ser jararaca para sobreviver isismedri / iNaturalist O jogo dos 4 erros: como diferenciar? Para o olho destreinado, a confusão é quase certa. "Elas não são idênticas, são parecidas. Mas o ser humano tem um medo instintivo e não 'enxerga' os detalhes", afirmou Puorto. No entanto, existem algumas "falhas" na fantasia da falsa-jararaca que permitem a identificação segura por especialistas. Confira o comparativo: Jararaca verdadeira tem fosseta loreal entre o nariz e os olhos. brunomoller_brm / iNaturalist O especialista Giuseppe Puorto aponta detalhes fundamentais que distinguem a "atriz" da verdadeira verdadeira: Os Olhos: a pupila da falsa-jararaca (Xenodon) é redonda, característica típica de animais com hábitos diurnos. Já a jararaca verdadeira (Bothrops) possui a pupila vertical (em fenda), semelhante à de um gato, indicando hábito noturno. O "Radar" (Fosseta Loreal): a verdadeira possui um orifício visível entre o olho e a narina (a fosseta loreal), usado para detectar calor. A Falsa-jararaca não possui essa abertura, tendo a face lisa nessa região. A Textura da Pele: as escamas dorsais da Xenodon são lisas ao toque. As da jararaca verdadeira são "quilhadas", ou seja, possuem uma elevação central (como a quilha de um barco), o que dá uma aparência e textura áspera à pele. O Desenho no Corpo: enquanto a falsa apresenta faixas irregulares e variáveis , a jararaca verdadeira costuma exibir desenhos mais geométricos, geralmente em forma de "V" invertido (ou o desenho do telefone antigo) bem marcado. Atenção: Nunca tente manipular uma serpente para checar esses detalhes. Na dúvida, mantenha distância e respeite o animal. Engenharia biológica: A "furadora de sapos" Falsa-jararaca, boipeva. danmhaddad / iNaturalist Se para nós ela finge ser perigosa, para os sapos ela é um pesadelo real — e cheio de tecnologia biológica. A Xenodon tem uma dieta especializada em anfíbios, como o sapo-cururu (Rhinella). A natureza a equipou com uma dentição traseira peculiar e estratégica. "Quando o sapo é predado, ele infla o pulmão para ficar gigante e difícil de engolir", contou Puorto. É aí que entra a "ferramenta" da Xenodon. "Ela apresenta um par de dentes maiores no fundo da boca. Ela vira a cabeça, perfura o pulmão do sapo como se fosse um balão, o ar escapa e ela consegue ingeri-lo", detalhou o pesquisador. Além da mecânica, há a química. Muitos desses anfíbios possuem toxinas potentes na pele que matariam outros predadores, mas a Falsa-jararaca possui imunidade fisiológica a esse veneno. Vítima da ignorância Apesar de seu papel crucial no controle da população de anfíbios, a Xenodon sofre com a má fama. Ao encontrar humanos, seu disfarce — que deveria salvá-la de gaviões e outros predadores — acaba sendo sua sentença de morte. "O ser humano apresenta um medo bíblico das serpentes. Elas são mortas impiedosamente, sejam perigosas ou não", lamentou Puorto. A presença dessa espécie é um indicador de biodiversidade, sendo endêmica da Mata Atlântica, conforme apontam levantamentos de fauna do bioma. Preservar a "atriz" da floresta é garantir o equilíbrio de um ecossistema complexo onde, às vezes, nem tudo é o que parece. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente