cover
Tocando Agora:
A RÁDIO CIDADE . TOP - FELIZ 2026!!!

Artemis II: o que aprendemos com o ‘teste de fogo’ para voltar à Lua e quais são os próximos passos?

Após mais de 50 anos, a humanidade voltou às vizinhanças da Lua — e foi mais longe do que nunca. A missão Artemis II levou astronautas à maior distância...

Artemis II: o que aprendemos com o ‘teste de fogo’ para voltar à Lua e quais são os próximos passos?
Artemis II: o que aprendemos com o ‘teste de fogo’ para voltar à Lua e quais são os próximos passos? (Foto: Reprodução)

Após mais de 50 anos, a humanidade voltou às vizinhanças da Lua — e foi mais longe do que nunca. A missão Artemis II levou astronautas à maior distância da Terra já registrada por um ser humano. A viagem lunar revelou mais do que imagens impressionantes: ajudou a estudar o cenário para planos mais ambiciosos, como, no futuro, permanecer na Lua e chegar até Marte. A missão foi organizada pela Nasa, agência espacial americana, e levou quatro astronautas em uma jornada ao redor da Lua. Pela primeira vez em uma missão tripulada desse tipo, os olhos humanos puderam observar ao vivo regiões pouco exploradas do satélite e alcançar o ponto mais distante já percorrido em relação ao planeta natal. Nesta sexta-feira (10), eles retornaram à Terra. Enquanto a missão acontecia, a internet se dividia entre quem estava deslumbrado com as imagens compartilhadas pela agência e quem questionava: como, tantos anos depois de já ter ido à Lua e pisado nela, o homem nem pousou no satélite e ainda chamou a viagem de "um avanço para a ciência"? O lado oculto da Lua é crucial para o futuro da exploração espacial NASA via Getty Images O primeiro ponto é que, mesmo já tendo estado lá, não dá para banalizar o desafio de repetir o feito. Mas há também uma mudança de objetivo. Se antes a ida ao satélite era uma visita curta, como foi com a Apollo, agora a proposta é outra: permanecer e chegar a Marte. Esta viagem funcionou como um laboratório em movimento, reunindo dados inéditos sobre o corpo humano, novas tecnologias, a comunicação a longas distâncias e o próprio ambiente lunar. Em vez de repetir o passado, a missão foi desenhada como um “teste de fogo”. E, até aqui, o que já se sabe é que o ser humano conseguiu, com segurança, avançar nesse caminho e se aproximar de uma nova etapa na exploração espacial. “Hoje, por toda a humanidade, vocês estão ultrapassando essa fronteira”, disse Jenni Gibbons, astronauta canadense que atuava como comunicadora da cápsula, no Centro de Controle da Missão. Apollo 14: Alan Shepard ao lado do símbolo americano, em 1971 NASA/Heritage Space/picture alliance Esse retorno à Lua acontece em um cenário diferente do da Guerra Fria. A nova corrida espacial envolve não só governos, como Estados Unidos e China, mas também empresas privadas, interessadas em recursos e novas tecnologias. É um movimento com potencial científico — mas que também exige cautela, diante das disputas e dos interesses que passam a se projetar para além da Terra. Nesta reportagem, o g1 mostra o que a Artemis II ensinou, o que mudou em relação às missões do passado e por que essa nova fase da exploração espacial pode redefinir o futuro da presença humana fora da Terra. Você vai ler: Por que voltar à Lua não é simplesmente repetir o passado? De Apollo a Artemis: o que mudou? Quais são os ganhos para a ciência com a Artemis II? O que a Artemis II fez e o que já sabemos? Harrison Schmitt, da Apollo 17, ao lado da bandeira dos EUA na última missão lunar da Nasa NASA/Bildagentur-online/picture alliance Por que voltar à Lua não é simplesmente repetir o passado? Voltar à Lua mais de 50 anos depois não é como apertar o botão “repetir” de um projeto antigo. Apesar de o ser humano já ter pisado no satélite, a missão Artemis II foi construída praticamente do zero. A tecnologia usada nas missões Apollo, entre as décadas de 1960 e 1970, hoje é considerada obsoleta. “Quase nada daquela tecnologia pode ser reaproveitado hoje. É como se fosse uma missão praticamente do zero”, diz o astrofísico Filipe Monteiro, do Observatório Nacional. O astrofísico Ricardo Ogando explica que esse é um projeto que, embora se baseie no que foi feito na missão Apollo, precisa ser testado passo a passo como algo novo. Todo o aparato nunca esteve fora da Terra antes. “É como dirigir um carro novo, que você desconhece. Se você dirige um carro antigo, manual, e pega pela primeira vez um carro com uma tecnologia mais nova, elétrico e automático, você não vai querer pegar a estrada de primeira. Precisa experimentar antes”, explica. A Artemis II cumpre justamente esse papel: é o “test drive” antes de uma missão mais arriscada, como o pouso na superfície lunar. Veja o que foi testado: Sistemas digitais e suporte à vida Diferente dos controles analógicos das missões Apollo, a cápsula Orion opera com sistemas digitais que monitoram o oxigênio, removem o gás carbônico e regulam a temperatura em tempo real. "Selfie" da nave Orion feita por uma das câmeras em seus painéis solares durante a missão Artemis II NASA Comunicação por laser A missão validou o envio de dados e vídeos em alta definição por laser, mais rápido e eficiente que as tradicionais ondas de rádio. Apesar disso, durante o trajeto pelo lado oculto da Lua, a tripulação e a cápsula ficaram sem contato com a Terra por um intervalo de 40 a 50 minutos — um desafio técnico que ainda precisa ser aprimorado. Astronautas da Artemis II Jornal Nacional/ Reprodução A cápsula e o escudo térmico A cápsula é o ambiente onde o ser humano é posto à prova em condições extremas. A Orion foi projetada para suportar a reentrada na atmosfera a cerca de 40 mil km/h — uma condição que precisava ser validada com tripulação a bordo. Dentro dela, sistemas monitoram o oxigênio, removem o gás carbônico e regulam a temperatura interna — funções essenciais para manter os astronautas vivos em um ambiente hostil. Nem tudo, porém, funcionou de forma ideal. O banheiro, por exemplo, apresentou falhas, e os astronautas precisaram usar soluções improvisadas durante parte da missão. “Passar cerca de dez dias em um espaço reduzido, lidando com limitações até no sistema sanitário, mostra que até as necessidades básicas ainda são parte dos testes tecnológicos e que melhorias ainda são necessárias”, explica Ricardo Ogando. Além da tecnologia, o próprio ambiente da missão também impôs novos desafios. As missões Apollo exploraram regiões mais iluminadas e acessíveis da Lua. Agora, a proposta é diferente. A Artemis mirou o Polo Sul lunar, uma região mais hostil, com terreno acidentado, áreas permanentemente sombreadas e temperaturas que podem chegar a -200 °C — um ambiente que exige outro nível de planejamento e tecnologia. Imagem feita pela missão Artemis II mostra o lado oculto da Lua (à esquerda) e o lado visível (à direita), com destaque para a bacia de Orientale. NASA Ou seja, a ideia de que “já fizemos isso antes” não se sustenta quando se observa o tipo de missão que está sendo construída agora. A diferença entre as missões do século passado e o programa atual não está apenas na tecnologia, mas também no objetivo. Entre 1969 e 1972, durante o programa Apollo, a meta era chegar à Lua, coletar amostras e voltar em segurança. Eram missões curtas, em regiões mais acessíveis do satélite. “As missões Apollo eram como um grande acampamento: pousava em uma área, fazia as pesquisas por algumas horas ou dias e voltavam”, resume o astrônomo Filipe Monteiro. Agora, o plano é outro. A ideia é estabelecer uma presença contínua na Lua, com estruturas capazes de sustentar astronautas por mais tempo. Isso exige um salto de complexidade: novos sistemas de suporte à vida, novas formas de comunicação e a capacidade de operar em ambientes muito mais hostis. O veículo-robô Perseverance em Marte. NASA/JPL-Caltech Essa mudança de planos também levou a missão a um destino diferente. Enquanto a Apollo pousou em regiões próximas ao equador lunar — mais planas, iluminadas e conhecidas —, a Artemis mira o Polo Sul da Lua. É uma área ainda pouco explorada, com terreno irregular, crateras em sombra permanente e temperaturas que podem chegar a -200 °C. E por que essa região? Ela concentra indícios de gelo de água, um recurso considerado estratégico para o futuro da exploração espacial. Além de servir para consumo humano, essa água pode ser transformada em hidrogênio e oxigênio — os dois elementos usados como combustível em foguetes. Na prática, isso abre a possibilidade de produzir combustível fora da Terra. A Lua deixaria de ser apenas um destino e passaria a funcionar como uma base logística — um ponto de apoio para missões mais longas, como a ida até Marte. Quais são os ganhos para a ciência com a Artemis II? Mesmo sem pouso, a Artemis II deu grandes passos para a ciência, segundo os especialistas. Durante o voo, os astronautas observaram regiões pouco exploradas da Lua, coletaram dados inéditos sobre o ambiente espacial e ajudaram a testar, na prática, sistemas que serão usados em voos mais longos. A missão gerou mais de 175 GB de dados, que agora serão analisados por pesquisadores para novos achados sobre o espaço lunar e até para se prepararem para os próximos passos do desafio no espaço. Entre as principais pontos para a ciência estão: Astronautas da Artemis II em entrevista à imprensa neste sábado (4). Reprodução Observação humana em tempo real Durante o sobrevoo, os tripulantes descreveram crateras, relevo e variações de cor diretamente para o controle da missão — um tipo de leitura que complementa as imagens das sondas. Isso pode ajudar a entender melhor a composição da Lua, por exemplo. Estudar como o corpo humano reage no espaço A Artemis II levou células humanas cultivadas em estruturas tridimensionais — a tecnologia conhecida como “órgão em chip”. Essas células foram expostas às condições de radiação e microgravidade e agora, na Terra, serão analisadas para entender os efeitos de exposições prolongadas. Isso ajuda a planejar futuras missões com mais segurança. “Levar um ser humano ao espaço é uma atividade de alto risco. Entender se é seguro para a tripulação antes de mandar um grupo de pessoas para uma base, como a Nasa quer, é imprescindível. E esse vai ser um ganho para a ciência em geral”, explica Ricardo Lua em eclipse em imagem feita pela Artemis II Divulgação/Nasa A Lua sob outra luz A Artemis fez um sobrevoo prolongado até o lado oculto da Lua. As imagens captadas em diferentes ângulos agora serão analisadas para estudar crateras, vales e montanhas com mais precisão — algo essencial para futuras missões. Onde estão os recursos para sustentar uma base Os dados coletados ajudam a refinar a busca por gelo de água no polo sul lunar, recurso considerado essencial para a instalação de uma base permanente. A importância da Artemis II vai além de levar o homem novamente às proximidades da Lua. A missão também funciona como um motor de inovação, com tecnologias que podem ter impacto direto na vida na Terra. Soluções desenvolvidas para enfrentar desafios extremos acabam incorporadas ao cotidiano — como aconteceu com tecnologias como o GPS e o Wi-Fi. Ao mesmo tempo, esse avanço traz novos debates. A retomada das missões tripuladas à Lua acontece em um contexto de disputa global. Imagem feita pela missão Artemis II mostra o lado oculto da Lua (à esquerda) e o lado visível (à direita), com destaque para a bacia de Orientale. NASA No centro dessa corrida está o Polo Sul lunar. A região concentra gelo de água e minerais estratégicos, como o hélio-3, e passou a ser alvo de interesse de diferentes países. A China já avançou com missões robóticas e análises no lado oculto da Lua, enquanto o programa Artemis busca consolidar a presença dos Estados Unidos e desenvolver as tecnologias necessárias para explorar esses recursos. Mais do que uma conquista científica, a Lua volta a ocupar um papel estratégico. E, desta vez, o que está em jogo não é apenas chegar — mas permanecer, explorar e definir quem lidera a próxima fase da presença humana fora da Terra.