cover
Tocando Agora:
A RÁDIO CIDADE . TOP - FELIZ 2026!!!

Ana Clara busca recuperar movimentos das mãos atacadas em tentativa de feminicídio e traça novos planos um mês após alta

Ana Clara Antero, vítima de tentativa de feminicídio, fala sobre processo de recuperação após reimplante das mãos Ismael Soares/SVM A recuperação dos mo...

Ana Clara busca recuperar movimentos das mãos atacadas em tentativa de feminicídio e traça novos planos um mês após alta
Ana Clara busca recuperar movimentos das mãos atacadas em tentativa de feminicídio e traça novos planos um mês após alta (Foto: Reprodução)

Ana Clara Antero, vítima de tentativa de feminicídio, fala sobre processo de recuperação após reimplante das mãos Ismael Soares/SVM A recuperação dos movimentos e as futuras realizações pessoais são objetivos que movem a nova rotina de Ana Clara Antero de Oliveira, de 21 anos, que teve alta hospitalar há cerca de um mês. No dia 1º de maio, ela sofreu uma tentativa de feminicídio e teve uma mão decepada e outra semimutilada. O crime ocorreu na cidade de Quixeramobim, no interior do Ceará. A jovem ficou internada no Hospital Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, até o dia 29 de maio, tendo passado por cirurgias e pelo reimplante das duas mãos. Ela também teve cortes profundos em outras partes do corpo, como, na perna e no cotovelo. ✅ Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp O ex-namorado de Ana Clara, Ronivaldo Rocha dos Santos, e o irmão dele, Evangelista Rocha dos Santos, foram presos e viraram réus por tentativa de feminicídio. Sob os comandos de Ronivaldo, Evangelista atacou a jovem usando uma foice. Atualmente, Ana Clara mora com familiares na capital para facilitar o acesso às sessões de fisioterapia e às consultas de retorno com o cirurgião. Enquanto se dedica à reabilitação do corpo, a jovem busca também trilhar outros caminhos na espiritualidade e na construção de novos sonhos. Jovem é aplaudida por equipe médica, funcionários e acompanhantes ao receber alta. “Muitas coisas estão mudando. E tem muita coisa que eu quero mudar. A Ana Clara antiga morreu, e agora nasce uma nova Ana Clara, com visão de futuro”, contou ao g1. Como nas primeiras entrevistas concedidas após a tentativa de feminicídio, ela mantém a serenidade na fala enquanto reflete sobre o passado e traça planos para si. Dentre as possibilidades, estão a vontade de empreender, de voltar a estudar e de continuar a contar a própria história como forma de conscientização sobre a violência contra a mulher. Uma nova dinâmica familiar Ainda sem o controle das mãos após o reimplante, Ana Clara tem dificuldades para se comunicar com a mãe, que é surda. Antes do ataque, a jovem conversava com ela utilizando gestos e sinais de uma linguagem própria criada pelas duas. A mãe e o padrasto de Ana Clara estão morando com ela em Fortaleza. O padrasto, José Airton Firmino, perdeu o braço há mais de 40 anos em um acidente com uma máquina colheitadeira. O resultado é uma dinâmica na qual, para resolver coisas práticas, como retirar uma tala ou ajudar a jovem a fazer os exercícios da fisioterapia em casa, cada um enfrenta as próprias limitações. “O meu padrasto escuta e fala, mas só tem uma mão. Para ele me ajudar, é um pouco complicado. Já a minha mãe tem as duas mãos, só que ela é surda. Às vezes, quando ele passa [instruções] para a minha mãe, ela não entende. Ele não consegue se comunicar tão bem com ela. Então é um processo complicado, mas é o jeito que a gente tem”, explicou a jovem. Os três moram atualmente no bairro Montese em uma casa disponibilizada por um casal de amigos de José Airton. Ana Clara conta também com a ajuda de uma vaquinha virtual para arcar com custos de alimentação e transporte na capital, além de auxiliar o casal anfitrião com despesas da residência. A estimativa é que ela precise permanecer em Fortaleza por cerca de um ano para o processo de reabilitação das mãos. LEIA TAMBÉM: 'Estava consciente o tempo todo', diz Ana Clara sobre tentativa de feminicídio em que teve mãos decepadas pelo cunhado Jovem que teve mãos decepadas deixou estudos e academia para evitar brigas com namorado Agiotagem e drogas: conversas entre acusados de decepar mãos de jovem sugerem participação em outros crimes Ela explica que a situação financeira é delicada porque a fisioterapia está sendo feita com uma equipe da rede privada, após indicação do médico cirurgião. Outra dificuldade surgiu porque o padrasto de Ana Clara deixou o trabalho, em Quixeramobim, para acompanhar a enteada durante este período. Processo de recuperação Ana Clara Antero, de 21 anos, passa por sessões de fisioterapia para reabilitar movimentos das mãos Ismael Soares/SVM De segunda a sexta-feira, as sessões de fisioterapia são voltadas para reabilitar os movimentos das duas mãos de Ana Clara. Os exercícios são para que, aos poucos, ela consiga mover os punhos, esticar os dedos e abrir as mãos sem ajuda, por exemplo. Como parte da recuperação, ela também recebe massagens nos braços e fica sob a ação de aparelhos que estimulam pequenos “choques” nas mãos. “Eu sinto o choque, isso é clinicamente maravilhoso. Porque indica que os nervos já estão vindo, eles estão crescendo. Disseram que eu vou precisar de cinco meses para os nervos se reconstruírem até as pontas dos dedos”, partilhou. Na última segunda-feira (22), ela também começou a fazer fisioterapia na perna esquerda, que teve um tendão cortado e reconstruído após cirurgia. Por isso, ela enfrenta dificuldades para caminhar atualmente. O trabalho é para voltar a movimentar o pé para cima e no sentido de dentro para fora. Os avanços parecem lentos, e alguns exercícios trazem dores — principalmente os das mãos. Mesmo com grandes desafios, ela considera que está se recuperando bem. “É um processo lento. Hoje mesmo eu chorei porque dói bastante, dói muito porque força. Mas quando eu saí da fisioterapia, essa minha mão já estava um pouco mais aberta. Então a gente vê que é um processo bem longo, que não adianta se desesperar. [...] Não é fácil, mas todos os dias Deus tem me dado muita força pra eu não desistir”, relatou Ana Clara. Ela partilhou que ainda deve passar por duas cirurgias com a mesma equipe do Instituto Dr. José Frota, com procedimentos mais simples nas mãos. O g1 solicitou ao IJF o detalhamento dos próximos procedimentos cirúrgicos a serem realizados, porém não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Emoções conflitantes no retorno à cidade Desde que saiu do hospital, Ana Clara esteve três vezes na cidade de Quixeramobim, onde morava com o ex-namorado. Nestas visitas, ela teve contato com amigos e familiares. A jovem contou que se surpreendeu ao receber visitas também de pessoas que se comoveram com o caso. Em uma das ocasiões, ela foi convidada para contar sua história em um evento que debatia o ciclo da violência contra a mulher, juntamente com o delegado de Quixeramobim, William Lopes, que conduziu a investigação e a prisão dos agressores de Ana Clara. Para ela, a experiência de voltar à cidade teve sentimentos mistos. Apesar da alegria ao ser acolhida por conhecidos e desconhecidos, o retorno também trouxe memórias sobre a violência sofrida. “Na segunda semana que eu fui, realmente começou a dar aquela crise de pânico antes de eu chegar na cidade… Aquela vontade de sair do carro e correr, uma sensação ruim. Porque você relembra tudo o que aconteceu. [...] Tudo bem que a cidade não tem culpa, mas é uma cidade onde eu vivia e onde tudo aconteceu. Então, eu tenho um pouco de trauma”, compartilhou. A jovem explicou que, por enquanto, não pretende voltar a morar no município após terminar o tratamento em Fortaleza. Ela quer manter o vínculo com o local fazendo visitas pontuais, mas planeja reconstruir a vida em outro lugar. Tempo de fé e de sonhos Voltar para os estudos e empreender estão entre os planos de futuro de Ana Clara Antero, vítima de tentativa de feminicídio no Ceará. Ismael Soares/SVM Nascida em um ambiente católico, Ana Clara começou a frequentar cultos evangélicos após sair do hospital. Ela sentiu uma resistência inicial na família ao aderir a uma nova religião. Teve dúvidas e, com a aceitação da mãe e do padrasto, considerou que recebeu uma resposta sobre o caminho a seguir. Segundo a jovem, um dos principais objetivos dos pais é que ela tenha novas vivências em ambientes saudáveis e com fortes laços de amizade. Neste novo momento, ela conta que os tempos de oração e de adoração proporcionam um amparo espiritual e emocional. Ela também se dedica a reconhecer os próprios sonhos sem estar em um relacionamento amoroso. O movimento vem depois de compreender que se anulou excessivamente no namoro com Ronivaldo, tendo abandonado os estudos e os cuidados consigo mesma. Como contou ao g1, as brigas com o ex eram frequentes, e Ronivaldo se irritava quando ela fazia procedimentos nos cílios e nas unhas ou quando não usava calça e blusa de manga para ir à academia, por exemplo. “Eu não penso em relacionamento. No momento, eu tenho traumas. Até de conversar com outra pessoa. Às vezes, um homem vem dar um abraço, dar aquela demonstração de estar ali me apoiando… Eu fico com receio principalmente com quem eu não conheço. Porque se pessoas que eu conhecia fizeram isso comigo, imagine quem eu não conheço". Quando pensa no futuro, Ana Clara se imagina aproveitando as oportunidades de falar sobre a violência contra a mulher. Ela também recorda que tem uma afinidade com vendas e não descarta a possibilidade de ser uma empreendedora e abrir o próprio negócio. Outro caminho possível é retomar os estudos. Ela explica que não daria continuidade à graduação em nutrição. Em vez disso, pensa em perseguir um sonho mais antigo: o de cursar direito e trilhar uma carreira na polícia. “Eu tenho medo porque, na polícia militar, o teste de aptidão física é um pouco complicado. Você tem a barra, [tem que] segurar com as duas mãos e sustentar o seu peso. Eu não sei como vão estar os movimentos das minhas mãos, se vai voltar como antes, se eu vou conseguir ter força que nem antes”, contou Ana Clara. Imaginando cenários em um futuro ainda incerto, ela se sente grata por quem tem ajudado nas dificuldades do momento de recuperação. Na rotina da nova casa, ela também recebe amigas que fazem os cuidados com o cabelo e com a pele. As pessoas próximas também ajudam na atualização das redes sociais de Ana Clara, mostrando detalhes da recuperação. Atualmente, ela consegue mexer no celular com os dorsos das mãos e com os pés. E se emociona ao ler mensagens de quem manda orações e boas energias para que ela encontre uma nova vida após um ciclo de violências. Mulher que teve as mãos decepadas pelo cunhado se fingiu de morta após agressão Assista aos vídeos mais vistos do Ceará: