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A cidade de MS que virou uma das principais portas de entrada de 'mulas humanas' de cocaína da Bolívia

Entenda como MS virou uma das principais portas de entrada de 'mulas humanas' Corumbá é a principal rota para um tipo específico de tráfico em Mato Grosso d...

A cidade de MS que virou uma das principais portas de entrada de 'mulas humanas' de cocaína da Bolívia
A cidade de MS que virou uma das principais portas de entrada de 'mulas humanas' de cocaína da Bolívia (Foto: Reprodução)

Entenda como MS virou uma das principais portas de entrada de 'mulas humanas' Corumbá é a principal rota para um tipo específico de tráfico em Mato Grosso do Sul: o envio internacional de cocaína por meio de “mulas humanas”. Segundo a Polícia Federal (PF) e a Receita Federal, o esquema recruta pessoas em situação de vulnerabilidade no país vizinho para trazer a droga ao Brasil. O principal destino é a cidade de São Paulo. Veja o vídeo acima. Entre 8 e 10 ônibus cruzam diariamente a fronteira entre Bolívia e Brasil, em Corumbá. Segundo estimativas da Receita Federal, em cada veículo pode haver até 8 pessoas com cápsulas de cocaína dentro do corpo. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp O esquema começa na Bolívia. Segundo o delegado da Polícia Federal Estevão Baesso de Oliveira, os chamados “coiotes” escolhem as “mulas”, oferecem dinheiro, preparam a droga para ingestão e orientam sobre o trajeto. A viagem é feita de ônibus, vans ou carros até o Brasil. O método, conhecido como transporte por ingestão, transforma o corpo humano em “contêiner” para driblar fiscalização na fronteira. Conforme especialistas das áreas de segurança e saúde ouvidos pelo g1, a prática integra uma engrenagem com alto volume diário de droga e impõe risco severo a quem engole as cápsulas, já que pode levar a morte imediata. 🔎 Há duas formas mais comuns desse transporte. O body stuffer é quem engole pequena quantidade de droga de forma improvisada, geralmente para tentar escapar do flagrante. Já o body packer, conhecido como “mula”, leva grandes quantidades em cápsulas fechadas e ingeridas de forma planejada, muitas vezes em viagens internacionais. Infográfico: "Mulas humanas" transportam cocaína no corpo da Bolívia para o Brasil. Arte/g1 Por que Corumbá é estratégica para o tráfico internacional Cada pessoa engole, em média, cerca de 100 cápsulas de cocaína em tráfico internacional Receita Federal A Polícia Federal não especifica o modo de transporte da droga nos registros de apreensões, apenas contabiliza o total de entorpecente apreendido. Em 2025, foram cerca de 8,42 toneladas e, somente nos dois primeiros meses de 2026, pouco mais de uma tonelada de cocaína já foi apreendida até a atualização desta reportagem. O delegado Estevão Baesso de Oliveira explica que Corumbá não é foco de abastecimento local, mas sim uma rota de passagem estratégica para o tráfico internacional. “Corumbá é utilizada como rota para Campo Grande e principalmente São Paulo. De São Paulo, a droga pode seguir para o Porto de Santos e aeroportos como Guarulhos e Viracopos, sendo exportada para outros países”, afirmou. Segundo o delegado, o principal objetivo da PF é ir além das prisões em flagrante das mulas. “Nosso foco é identificar as lideranças criminosas que estão se enriquecendo com essa logística”, destacou. As autoridades apontam que o tráfico por ingestão é um dos principais desafios no combate ao narcotráfico na região. Segundo o delegado da Polícia Federal, a combinação de exploração de pessoas vulneráveis, logística organizada e fragilidades na fiscalização torna a fronteira entre Brasil e Bolívia um dos pontos mais sensíveis do crime transnacional no país. Conforme a auditora-fiscal da Receita Federal Tatiane Laranjo Amadeu Suhogusoff, nos últimos anos as ações de fiscalização foram intensificadas, principalmente em parceria com outros órgãos de segurança pública. O órgão também informou que aprimorou o uso e o compartilhamento de informações de inteligência. Preparação na Bolívia e caminho ao Brasil De acordo com Helberth Teixeira dos Santos, Chefe do Escritório Regional de Fiscalização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em Campo Grande, a maior parte das “mulas humanas” é preparada ainda em território boliviano, principalmente na cidade de Santa Cruz de la Sierra. Dali, essas pessoas seguem de ônibus até Puerto Quijarro, na fronteira com o Brasil. “Chegando em Quijarro, elas são direcionadas por aliciadores aos ônibus que fazem o transporte de Corumbá para São Paulo de forma clandestina”, explicou Helberth . Segundo Helberth, as travessias são feitas em ônibus clandestinos. A droga é distribuída entre os passageiros para evitar suspeitas. Para despistar a fiscalização, os veículos se apresentam como fretamentos eventuais e simulam viagens turísticas. “Se cerca de 10% dos passageiros de cada ônibus forem mulas, são aproximadamente 5 quilos de cocaína por veículo. Em dias de pico, podem sair de Corumbá entre 10 e 15 ônibus, o que representa até 75 quilos da droga”. Segundo a inspetora da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Stéfanie Amaral, os flagrantes, na maioria das vezes, são constatados a partir de três indícios: 💬Entrevista durante a abordagem: a identificação começa com perguntas feitas pelos policiais nas rodovias; inconsistências nas respostas, nervosismo e contradições levantam suspeitas. 👤Linguagem corporal: o reconhecimento do perfil ocorre, principalmente, pela prática dos policiais, que observam comportamento, postura e sinais físicos durante a fiscalização. 🤮Sinais característicos: forte odor de látex na respiração e uso de preservativos íntimos para armazenar as cápsulas de cocaína são indícios recorrentes. Quando há suspeita de transporte interno da droga, a pessoa é levada a uma unidade de saúde para exames de imagem. Se a presença das cápsulas for confirmada, o paciente passa a ser acompanhado por médicos até a eliminação ou retirada do material. Stéfanie diz que também há casos em que o flagrante pode ocorrer após complicações de saúde, como fraqueza por falta de alimentação ou, em situações mais graves, rompimento das cápsulas no estômago durante o trajeto. LEIA MAIS: Grupo com 17 pessoas é detido a caminho de SP com centenas de cápsulas de cocaína no estômago PF desarticula esquema que usava pessoas para entrar no Brasil com cocaína no estômago Jovem vomita em policial e entrega 'mulas' com 200 cápsulas de cocaína no estômago O que é transporte de droga por ingestão O método mais utilizado é a ingestão de cápsulas de cocaína. Cada pessoa ingere, em média, cerca de 100 cápsulas, o que totaliza aproximadamente 1,1 quilo de pasta base de cocaína por pessoa, conforme a auditora-fiscal da Receita Federal Tatiane Laranjo Amadeu Suhogusoff “Eles ficam de um a três dias com a droga no organismo, até eliminarem tudo naturalmente”, informou o órgão. A escolha por esse método tem um objetivo claro: dificultar a fiscalização, segundo Tatiane. “A droga fica dentro do corpo e não aparece em scanners de bagagem comuns. Para identificar, é necessário uso de cães farejadores e exames de raio-X, o que exige estrutura e efetivo que nem sempre estão disponíveis”, explicou a Helberth, representante da ANTT. O que acontece se uma cápsula de cocaína se rompe no estômago Os riscos à saúde são considerados extremos para aqueles que carregam a droga no estômago. O médico toxicologista Sandro Trindade Benites alerta para a prática, que pode ser fatal. “É como se a pessoa que tivesse a droga rompida no estômago recebesse uma injeção de adrenalina direto na veia. Na imensa maioria dos casos, quando rompe, evolui para óbito. É quase sempre fatal”, explicou. Segundo o especialista, em caso de rompimento, a cocaína será rapidamente absorvida pelo organismo e provocar: ❤️ Batimentos cardíacos acima de 200 por minuto ⚡ Convulsões 🌡️ Hipertermia 🧠 Falência de múltiplos órgãos O médico responsável pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Mato Grosso do Sul (Ciatox-MS ), Alexandre Moretti, de Lima explica que a cocaína causa uma síndrome adrenérgica aguda, com hipertensão grave, arritmias cardíacas, infarto, derrame e sangramentos internos. Mesmo quando há sobrevivência, as sequelas podem ser permanentes. “Pode haver sequelas neurológicas, cardíacas e renais. Alguns pacientes precisam de hemodiálise pelo resto da vida”, disse. Por que pessoas vulneráveis entram no esquema Para o antropólogo Guilherme Passamani, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), este tipo de crime não deve ser associado a uma nacionalidade específica, mas sim a condições de vida precárias. “Eu não associaria a uma nacionalidade, mas a uma condição: uma vida precária, com fragilidades estruturais, que faz essas pessoas ponderarem que o risco de morrer ou ser preso é menor do que a vantagem imediata, que quase sempre é o dinheiro”, explicou. Segundo ele, essas pessoas não formam um grupo homogêneo e nem sempre têm plena noção da extensão dos riscos envolvidos. Para o antropólogo, os alvos são pessoas em situação de vulnerabilidade, quase sempre de um movimento pendular, ou seja, que se deslocam diariamente entre cidades. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: